sábado, 19 de fevereiro de 2011

HOMENAGEM A UMA JOINVILLE MAIS CONSCIENTE E COLETIVA


Caros joinvilenses e amigos leitores,
Moro aqui e sou muito grato a esta terra que me viu nascer. Foi aqui que aprendi que somente depois de uma grande batalha é que teremos o que almejamos. Como que um paradoxo também posso dizer, que apesar de viver numa cidade tão dinâmica, foi convivendo com joinvilenses que aprendi também que devagar se vai ao longe. Parabéns adiantado, minha querida cidade e parabéns, também, a todos que fazem deste lugar um espaço único, em constante transformação, e que deve ser respeitado.
Abraços,
Atanael

Prestes a completar 160 anos de idade, Joinville, no melhor dos sentidos, está no frescor de sua juventude. Digamos que esteja vivendo os conflitos próprios de sua adolescência, tentando criar uma imagem de si, que a propague, que sirva de ponto de partida do âmbito local para o universal. Torçamos, então, para que Joinville ganhe o mundo, para que ultrapasse alguns obstáculos e consiga driblar uma mídia local que a projeta como sendo a “cidade do norte”, pois trazer nos ombros o peso de ter uma irmã mais velha, menos rica e oportunista tem sido considerável, mas Joinville sobrevive há décadas, escondidinha, sem se dobrar, mais para não causar atritos, para não envergonhar quem quer que seja com a sua pujança.
É assim também seu povo. Donos de uma discrição, educação e um dinamismo invejável, os joinvilenses nascidos e os que a adotaram vêem sua cidade crescer para todos os lados. A cidade das indústrias, da dança, das flores, dos príncipes e das bicicletas, vai se tornando cada vez mais cosmopolita, um pólo de negócios, uma cidade universitária. É neste século que ela decide para onde vai crescer, ganha o status de cidade grande ao atingir a marca dos 515.288 habitantes e torna-se a maior cidade de interior do sul do Brasil.
Mas Joinville, apesar de estar ficando cada vez mais conurbada com outras cidades, tal qual Peter Pan, não quer crescer. Há quem diga se tratar de uma grande cidade pequena, o que, diga-se de passagem, antes de ser um paradoxo, é também um charme. No entanto, deixe que os fatos falem por si, afinal a sua paisagem propaga todos os seus conflitos. Andar por ela, nos tempos em que vivemos, exige destreza e boa vontade, pois apesar de ter a quarta maior malha de ciclovias do Brasil, disputam as ruas com as inúmeras bicicletas quase 300.000 veículos em vias cada vez mais abarrotadas, e que exigem de seus governantes um olhar mais arrojado, no que diz respeito a construções de elevados e duplicações de avenidas. Apesar disso, é preciso saber olhar...
Cada vez mais verticalizada, a cidade guarda em suas avenidas e ruazinhas segredos que esperam ansiosamente serem contados por alguém à sua altura, como fez Mário Quintana com Porto Alegre, Drummond com Itabira e Cora Coralina com seu velho Goiás. Talvez, por seu crescimento tão acelerado não houve alguém tão corajoso assim na poesia, mas que não se pode falar o mesmo em se tratando de cinema, como fez Rodrigo Falk Brum com o curta Sob o céu de Joinville (http://www.youtube.com/watch?v=LqoA4LKfrH4&feature=related), ao narrar, como num poema cubista, o cotidiano desta cidade mágica e linda que conhecemos. As nuances captadas pelo cineasta são de perder o fôlego. No curta apresenta-se uma Joinville que nem sempre, na fadiga do dia a dia, conseguimos perceber. Quem traz em sua essência o “ser joinvilense” não consegue ficar indiferente ao que vê neste curta. É impossível não se orgulhar pela beleza da cidade, acordar-se para o bucolismo das flores, para exuberância da mata atlântica que a entrecorta todo seu território, extasiar-se pela poesia de nossa chuva, rememorar a sua história pelos seus monumentos históricos, impactar-se com a imponência de seus prédios que insistem em subir cada vez mais, perceber suas ruas limpas, impecáveis, sua riqueza... Mas, por outro lado, é possível entristecer-se com a desigualdade social, os pobres escondidos nas imensas periferias da cidade, sim, porque nossa cidade também sabe muito bem esconder aquilo que não dá conta. Quem tem consciência das mazelas provocadas pelo mundo capitalista, emociona-se, quando, por metonímias, o vídeo mostra esses aspectos: pés calçados/pés descalços, avenidas e ruas floridas/becos e manguezais, zona norte/zona leste, etc. A diversidade de horizontes e/ou a falta deles é muito bem trabalhada pelo cineasta e chega a chocar.
Sob outro aspecto, ao considerarmos que o meio social joinvilense, há pouquíssimo tempo atrás, oferecia aos seus um universo restrito, que se limitava entre a ida e volta ao trabalho durante a semana, ao passeio em um Shopping Center ou uma noite na danceteria, que não eram muitas, fica clara a evolução da cidade que desabrocha a olhos vistos. Hoje, no entanto, vemos os filhos da cidade industrial de outrora participantes e donos de uma cultura híbrida, que se vestem bem para ir ao teatro, e que querem ficar até ao fim para discutir o enredo e a encenação da peça. Temos teatro itinerante, encenados em galpão, na associação de moradores de bairros, nos ônibus, e entre outros mais inusitados lugares. A maior escola técnica da cidade, numa perspectiva um tanto inusitada, ensina teatro, leva estudantes ao museu e discute literatura. E tem muito mais para quem deseja: discussão de filmes na Univille ou no Sesc, visitas a galerias de Arte e Museus, Teatro na Cidadela, Feiras culturais e técnicas, Festival de Dança, Recitais, shows. O resultado de tudo isso é um joinvilense mais eclético e preocupado com as causas sociais.
Não é possível, também, mais pensar uma Joinville sem a Via Gastronômica, sem seus restaurantes de altíssimo padrão, assim como se pode lamentar o pouco empenho dos últimos governos na construção de parques urbanos, uma vez que só agora sairá o primeiro deles: o Parque da Cidade. Os parques não são para os turistas, apenas. Os maiores beneficiados são os próprios joinvilenses. Não tem preço o prazer que sente um trabalhador que ao chegar cansado da labuta cotidiana pode ir a um parque com seu filho se exercitar. Assim como nos finais de semana, é gratificante mais uma possibilidade, bem mais sadia, que o passeio em shoppings centers. Se quisermos uma Joinville mais participativa e feliz, é necessário começar por aí. Espaços abertos como esses a que nos referimos, temos hoje as praças com academias, onde temos visto cada vez mais crianças felizes, pais e mães se socializando e dando mais vida a nossa já vigorosa Joinville.
Foto: Kátia Nascimento/Secom
A Joinville que quer ganhar o mundo também deve investir nos esportes. Apoio aos atletas e escolinhas nos bairros, para famílias de baixa renda, devem ser pensadas urgentemente. Os joinvilenses são loucos por esportes. Basta ir aos jogos de basquete no Ivan Rodrigues e aos jogos do Jec na Arena Joinville para se ter idéia da vibração dos torcedores. Ele quer participar, quer elevar o nome de seu time, assim como no seu consciente/ inconsciente quer construir redes sociais e hibridar culturas. Pensar espaços amplos e agradáveis para seu povo é investimento certo, por parte de seus governantes, para que a cidade cresça de forma sadia. O término da 3ª fase da Arena e a construção de um grande ginásio próximo a ela é de grande valia nesse momento em que seu povo quer “fazer parte”. Afinal, como já disse Maurice Halbwachs, o homem se caracteriza essencialmente por seu grau de integração no tecido das relações sociais.


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